domingo, 15 de março de 2009

LUDÂMBULO

[Crônica de Luiz Fernando Veríssimo - 18.5.2008 - 16h08m]

A etimologia não é uma ciência exata. Definir a origem de palavras muitas vezes envolve mais palpite e fantasia do que rigor escolástico.
Será verdade que toast, a palavra inglesa para "brinde", vem do hábito de mergulhar uma torrada (também toast em inglês) numa taça de bebida, que fazia a ronda dos convivas até voltar para quem propusera o brinde, que a comia?
Na corte de Henrique VIII da Inglaterra a torrada seria colocada num copo contendo a água do banho da rainha e o copo faria a ronda dos cortesãos — presume-se que reunidos em torno da banheira da rainha, com a rainha ainda dentro —, cabendo ao último gentil-homem o privilégio de comê-la. A torrada. Encontrei esta versão num livro fascinante chamado "Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis", de Domingos Castro Lopes, que nem o Google conhece, publicado em 1909.
Sim, tenho ido longe para me distanciar do tétrico noticiário do dia.
Mas o uso de beber a água do banho da rainha seria anterior ao século XVI. Escreve Castro Lopes (atualizei a ortographia): "Reinava como soberana Alcazar a bela D. Maria de Padilha, amante de Pedro o Cruel. A célebre favorita tinha adotado para seu uso o 'Banho das Sultanas', para o qual entrava em presença da corte, exigindo a polidez que cada cortesão bebesse no covo da mão da favorita um pouco da água do banho.
Recusou-se a fazê-lo um dos grandes da Espanha e perguntou-lhe o príncipe a razão de tal injúria. 'Depois de ter provado o molho', respondeu ele, 'receio que se me abra o apetite para o peixe'".
Castro Lopes odiava galicismos e anglicismos. Propôs alguns neologismos para substituir barbarismos dispensáveis. Em vez de "turista", que vem do tourist dos ingleses, "aqueles insulares que muito incita a bossa da locomoção", sugeriu "ludâmbulo" — de "ludus", divertimento, passatempo, e "âmbulo", andar, passear.
Assim como existem sonâmbulos, existiriam ludâmbulos, os que passeiam pelo mundo para se divertir.
Como o "ludopédio" para substituir "futebol", do Chico Buarque, a sugestão do Castro Lopes não teve futuro. Valeu a sua boa intenção, neste e em outros casos, de proteger nossa bela língua dos invasores.
Pelo menos ele foi poupado de ver "entrega" virar delivery e "caipira" virar country.
Curioso, na frase do Castro Lopes sobre os ingleses citada acima, o uso da palavra "bossa". Com o sentido de compulsão, se bem entendi. Não sou nenhum filólogo, mas essa bossa pra mim é nova.

Um comentário:

  1. Ludâmbulos e lulâmbulos não faltam em nosso país, com todo respeito é claro. A ortodoxia e seus fisiologistas enterraram o mundo.

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