quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A VERGONHA

Interesso-me por coisas da psicologia. Vem a calhar o artigo do psicanalista argentino Pacho O´Donnell, no Jornal Clarin de 12/11/2209, do qual retranscrevo os trechos abaixo:

"Costuma ser devastadoramente comum nos tempos em que vivemos, falhar esse decisivo preservador do funcionamento moral de uma sociedade: a vergonha. Será útil aqui resgatar o conceito de "vergonha", tal como formulada por Aristóteles em sua obra “Retórica” e também “Ética a Nicômaco”, que por vezes torna-se sinônimo de "pudor". O primeiro define a vergonha como "arrependimento ou embaraço relativo a vícios presentes, passados ou futuros, cuja presença acarreta uma perda de reputação". É o sentimento que se sofre como resultado de haver cometido um ato desonroso.

A obra “Ética a Nicômaco” a define como "medo do descrédito" sentimento anterior a consumação do ato reprovável que assim se constitui em um freio moral. Em ambos os casos, o fantasma da iminente perda de reputação, pelo realizado ou pelo pensado, perturba e provoca o medo do julgamento dos outros e da conseguinte rejeição social.

Para que isso aconteça é necessário ter um consenso coletivo concreto e definido sobre o que é bom e o que é ruim para a sociedade. Mas a sociedade em que vivemos está longe de incentivar ações virtuosas. Pelo contrário, o que prevalece é a inescrupulosidade, o pragmatismo, a ganância, o “ter” como substituto do “ser”.

Onde terá ido parar a vergonha daquele que desvia para seus bolsos, fundos públicos destinados a diminuir a pobreza de 30% de nossos semelhantes? E não é um único "sem vergonha". Infelizmente são muitos. Demasiados. No decorrer dos cem anos passados a vergonha socializada foi-se extinguindo. Somos uma sociedade que foi perdendo e minguando anticorpos contra a autodestruição. Entre eles o da vergonha."

Nenhum comentário:

Postar um comentário