terça-feira, 15 de dezembro de 2009

CAMPANHA E GOVERNO. COISAS DIFERENTES

Trechos da coluna de Cesar Maia na Folha de SP (12/12/2009):

Consultor de governos da CDU (Merkel) e hoje em atividade privada, Axel Wallrabeinstein, esteve no Brasil palestrando sobre as eleições de setembro na Alemanha. Não é necessário lembrar a escolarização dos eleitores lá, a sua politização dos mesmos, num quadro de partidos com perfil definido, e o uso da lista partidária (50% dos deputados). Portanto, é de se deduzir que a despolitização eleitoral no Brasil tenda a ser bem maior que na Alemanha.
Axel afirma que os programas de governo não têm mais a importância que tinham. O que conta para a vitória eleitoral são os personagens e a confiança pessoal do eleitor na imagem deles. O binômio básico é confiança e credibilidade. Da mesma forma, quando qualquer tema é abordado em campanha, ou ele se ajusta na imagem do candidato ou o eleitor o ignora. Colar os temas aos partidos e aos candidatos depende do imaginário sobre ambos. Ou se constrói com tempo a imagem do partido e do candidato ligado a um tema, ou esse não será crível para o eleitor.
Em pesquisa de respostas múltiplas na Alemanha, 79% dos eleitores disseram que os políticos não mantêm as promessas. 55% que eles fazem o que querem. Em outra pergunta, de respostas múltiplas, 77% afirmaram que os políticos defendem grupos de interesse, 66% que só pensam em seu próprio benefício, 60% que não se pode confiar nos políticos. Isso..., na Alemanha.
O ‘slogan’ principal das campanhas vai deixando de ter vinculação programática (educação, saúde, segurança, emprego...) e passa a tratar de valores e sentimentos. Sarkozy adotou “Orgulho pela França”. Obama, o divulgado “Sim, nós podemos”. Merkel, agora em 2009, “Temos força para cumprir”, num plural que incluía os eleitores. Neste ano, 35% dos eleitores afirmaram que sua decisão definitiva só se deu na ultima semana, retratando uma linha de alheamento que Merkel explorou com uma espécie de ‘não-campanha’.
Assim, o exercício do poder, depois, ganha autonomia em relação às razões eleitorais. Muito mais aqui que lá: promete-se qualquer coisa em campanha e faz-se o que se quer no governo. O poeta francês Marquês de Ximenes, no final do século 18, usou a expressão ‘Pérfida Albion’ (nome romano da Inglaterra) para afirmar que o país era um reino onde se dizia uma coisa e se fazia outra. Era um momento de ampla corrupção política na Inglaterra.

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