quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

DEMOCRACIA NO SÉCULO 21

Trechos do artigo de Pierre Rosanvallon, historiador e professor do College de France, no Clarin (31/1/2010). Tradução do ex-blog do Cesar Maia:

1. Aos regimes democráticos resulta-lhes difícil integrar a preocupação pelo longo prazo o seu funcionamento. A dificuldade volta a ser preocupante nos momentos em que as questões ambientais e climáticas obrigam a pensar em termos inéditos nossas obrigações para com as gerações futuras.

2. Esta dificuldade não tem nada de inédita. Desde o início da Revolução Francesa, Condorcet alertava sobre os perigos do que chamava uma "democracia imediata". Efetivamente, uma espécie de "preferência pelo presente" parece marcar o horizonte político das democracias. Isto se deve a razões estruturais, que derivam de comportamentos determinados pelos ritmos eleitorais e os imperativos das pesquisas eleitorais.

3. A carreira ofegante do curto prazo é filha das condições em que se exerce a luta pelo poder. Em conseqüência, é trivial opor os ideais típicos do "político", que só se preocupa pela próxima eleição, a do "homem de Estado", que teria os olhos postos num horizonte mais longínquo. A fórmula lapidária do Contrato social de Rousseau ("É absurdo que a vontade coloque cadeias no futuro") serviu de fundamento para as democracias modernas.

4. Não é possível a preocupação com o longo prazo sem que exista uma função pública forte. No século XIX, os avanços da educação foram uma das matrizes essenciais da consolidação democrática. No século XXI, é a conscientização social da necessidade de um novo horizonte temporal da razão pública, que será o vetor de um aprofundamento da idéia democrática.

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