segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Romanceiro da Incofidência

(Cecília Meireles)

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.
E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.
Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes
— parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.
Isabéis, Dorotéias, Eliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas
em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.
Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.
Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília... — quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?
Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?
Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.
O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,
vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Um comentário:

  1. O Romanceiro da Inconfidência é a obra que mais gosto da Cecília Meireles, eu a li na minha adolescência e foi através dela que comecei a despertar para a necessidade de fazer do meu país um país livre. Eu sempre fui enamorada da política, mas tive de adiar esse romance e abafá-lo porque éramos reprimidos em casa quando o assunto se tratava de política em virtude da minha família ter sido perseguida e presa por perseguição política desde a época do Nazismo.
    Como eu era proibida de falar em política, passei uma época até odiando a política para vir me reencontrar com ela agora no início da maturidade.

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