segunda-feira, 18 de março de 2013

Diferenças que a educação pode produzir

Edgar Flexa Ribeiro
Fonte: Blog do Noblat

A classe dirigente paulista, logo após sua derrota na Revolução de 1932, tomou explicitamente a decisão de “formar uma nova elite capaz de contribuir para o aperfeiçoamento das instituições, do governo e a melhoria do país”, e organizou-se para tanto.

Um grupo de empresários fundou a Escola Livre de Sociologia e Política em 1933, e logo depois, em 1934, Armando Salles de Oliveira, então interventor, funda a Universidade de São Paulo - a USP - com a colaboração de Júlio de Mesquita Filho, entre outros.

Nas palavras de Sergio Milliet: “De São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas, e sim uma revolução intelectual e científica suscetível de mudar as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”.

Naquele momento, derrotado em suas pretensões, São Paulo identificou a necessidade, e aproveitou a oportunidade, para tratar da formação de suas elites. E com isso fixar prioridades, interesses, perspectivas e projetos locais - mas com projeção nacional.

O projeto USP floresceu e cresceu. Na geração seguinte à de sua fundação, 26 anos depois, as pretensões paulistas chegavam à Presidência da República pela primeira vez depois de 1930 com a posse de Jânio Quadros, em 1960. Jânio revelou-se apenas um projeto pessoal.

Mas no ano anterior, em 1959, já tinham começado a circular os primeiros “fusquinhas” feitos no Brasil. A indústria automobilística, que nascia em São Paulo, começava a mudar a face do país. E sempre os paulistas ocupando um considerável espaço nas decisões nacionais.

Em 1994, São Paulo volta afinal ao poder na segunda geração desde que a USP foi criada: tendo comandado a formulação e implantação do Plano Real como Ministro da Fazenda, no governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso é eleito Presidente da República.

Sessenta anos depois de sua criação, a USP cumpria as propostas de seus fundadores.

Evidentemente, o Brasil era outro. Mas São Paulo industrializado, modernizado e sempre rico já mostrava que seu projeto de poder ia talvez até além do que previram os seus iniciadores.

A indústria paulista como um todo, a indústria automobilística em particular, ganhara importância nacional. E para tornar o automóvel accessível “fez-se de um tudo”.

A principal consequência disso é que todas as outras formas de mobilidade das populações - e de recursos para organizar a expansão das cidades - desapareceram.

Todo mundo tem que ter automóvel ou andar de ônibus. As estradas de ferro, os transportes de massa sobre trilhos, desapareceram. O metrô aparece, mas como um “repeteco”, em áreas já desenvolvidas, e não para organizar a expansão em áreas ainda mal urbanizadas.

As cidades cresceram desordenadamente, problemas novos foram criados, prioridades foram esquecidas. Cai o imposto sobre os carros para quem já pode, e quem ainda não pode que se amontoe nas filas dos ônibus até poder ter seu “carrinho”.

O “êxito“ paulista teve seu preço. E a novíssima, moderníssima e tumultuada Brasília é um excelente exemplo – para não citar outros.

Até hoje não se tratou a sério dda ligação ferroviárioaentre o planalto central e o litoral da região sudeste. A segunda maior safra de soja do mundo chega aos portos no lombo de caminhões – e ainda querem fazer trem-bala para levar bacanas entre Rio e São Paulo.

Não há crise “nos portos”, a crise está no acesso a eles. E vamos em frente, de automóvel, no projeto paulista.

Assim correram as coisas. E nesse processo histórico caímos no presente: o país todo vive sob uma única “moeda”, emitida em São Paulo, fundada nos seus interesses e que comanda o resto. Como toda moeda, essa tem também duas faces. São antagônicas, mas são interdependentes: uma não resiste nem progride sem a outra. Só que com outros nomes: CUT e FIESP - ou seus apelidos: PSDB e PT. Tudo a serviço da mesma causa, cada face a seu modo: tomar o poder nacional.

Está chegando 2014. A carranca na frente da barcaça, venha de onde vier, tenha a cara que tiver, terá uma dessas origens e estará ancorada no mesmo projeto. É uma moeda só, e suas duas faces terminam sempre se compondo – afinal, é isso que lhe dá valor...

Edgar Flexa Ribeiro, educador.

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